Imagine descobrir que você tem um MBA que os registros da própria universidade dizem que você nunca terminou. Não estamos falando de um diploma enviado para o endereço errado ou de um simples erro de digitação. No caso de Heather Bresch, a situação foi muito mais estranha: disciplinas apareceram no histórico, notas foram acrescentadas e, quase dez anos depois de ela ter deixado o curso, a West Virginia University reconheceu que ela possuía o título.
Havia apenas um pequeno inconveniente: faltavam 22 dos 48 créditos necessários para concluir o programa.
O caso começou como uma simples checagem de currículo feita por jornalistas e terminou em investigação, revogação do diploma e uma crise que atingiu alguns dos cargos mais importantes da universidade. (Pittsburgh Post-Gazette)
Quem era Heather Bresch e como surgiu a história do MBA
Heather Bresch já ocupava uma posição importante na indústria farmacêutica americana. Em outubro de 2007, ela foi promovida a diretora de operações da Mylan, fabricante de medicamentos genéricos.
Bresch também era filha de Joe Manchin, então governador da Virgínia Ocidental.
Foi justamente por causa da promoção que o Pittsburgh Post-Gazette resolveu fazer algo absolutamente rotineiro: verificar as credenciais acadêmicas da executiva.
Em 11 de outubro de 2007, o jornal entrou em contato com a West Virginia University, conhecida como WVU.
A resposta inicial foi simples.
Bresch possuía graduação pela instituição, mas não havia concluído o MBA.
Os registros indicavam que ela havia parado de frequentar o programa faltando 22 créditos para completar os 48 exigidos. (Pittsburgh Post-Gazette)
Até aí, seria apenas uma informação incorreta em um currículo.
Mas quatro dias depois aconteceu algo muito mais interessante.
A universidade mudou sua posição.
Passou a afirmar que Bresch realmente havia completado os requisitos do Executive MBA. A explicação apresentada era que parte dos registros acadêmicos não havia sido corretamente transferida pela escola de negócios.
Pouco depois, o histórico acadêmico de Bresch foi modificado e o MBA passou a existir oficialmente.
Quase dez anos depois de ela ter deixado o programa.
O MBA de Heather Bresch e os 22 créditos ausentes
O problema estava nos números.
O Executive MBA exigia 48 créditos.
Segundo os registros examinados pelo Pittsburgh Post-Gazette, Bresch havia interrompido seus estudos quando ainda faltavam 22 créditos. Em outras palavras, quase metade da carga necessária para concluir o programa permanecia pendente. (Pittsburgh Post-Gazette)
Bresch sustentava que havia concluído os requisitos e chegou a dizer que se lembrava de participar da cerimônia de formatura em dezembro de 1998.
Mas participar de uma cerimônia não significava receber automaticamente o grau acadêmico.
A concessão do título dependia da confirmação das notas e dos requisitos pela área responsável pelos registros da universidade.
E era justamente ali que estava o problema.
O registro oficial não mostrava a conclusão do MBA.
Mesmo assim, em outubro de 2007, funcionários da universidade reconstruíram o histórico acadêmico e reconheceram retroativamente o título.
A explicação inicial parecia conveniente: registros antigos poderiam ter sido perdidos ou não transferidos corretamente.
Isso seria perfeitamente possível.
O problema surgiu quando alguém resolveu perguntar:
onde estavam as provas de que aquelas disciplinas realmente tinham sido cursadas?
Como disciplinas e notas apareceram no histórico acadêmico
Uma comissão especial posteriormente investigou o caso.
E o que encontrou tornou a situação muito pior.
A investigação concluiu que a universidade não possuía documentação suficiente para justificar várias alterações realizadas no histórico acadêmico de Bresch.
Cursos foram adicionados ao registro.
Notas foram lançadas.
Disciplinas que apareciam como incompletas receberam conceitos definitivos.
Segundo as conclusões posteriormente divulgadas, algumas notas haviam sido, na expressão utilizada pelos investigadores, “pulled from thin air” — essencialmente, tiradas do nada. (Pittsburgh Post-Gazette)
A própria documentação oficial da WVU registrou posteriormente um ponto particularmente importante: havia notas atribuídas a Bresch sem documentação de apoio que demonstrasse, por exemplo, matrícula ou pagamento das respectivas disciplinas. (BOG)
A universidade tentou reconstruir quase uma década depois um histórico acadêmico que supostamente deveria existir desde 1998.
Só que reconstruir um documento sem documentos suficientes para reconstruí-lo cria um problema bastante óbvio.
A investigação concluiu que Heather Bresch não havia cumprido adequadamente os requisitos necessários para receber aquele MBA. (Inside Higher Ed)
Investigação, favorecimento e crise na universidade
O caso seria complicado mesmo se Bresch fosse uma ex-aluna completamente desconhecida.
Ela não era.
Além de filha do governador Joe Manchin, Bresch trabalhava na Mylan.
A empresa possuía fortes vínculos com a universidade, e seu então presidente, Milan Puskar, era um importante benfeitor da WVU. O presidente da universidade, Michael Garrison, também possuía relações anteriores com Bresch e com a Mylan. (Pittsburgh Post-Gazette)
Isso transformou uma discussão sobre registros acadêmicos em uma questão muito maior:
uma pessoa politicamente conectada havia recebido tratamento especial?
A comissão investigadora concluiu que a decisão de conceder o MBA havia sido seriamente falha e marcada por favoritismo. Também apontou erros de liderança e uma pressa injustificada para resolver o problema depois que a imprensa começou a fazer perguntas. (Pittsburgh Post-Gazette)
Mas existe uma distinção importante.
As evidências não permitiam simplesmente afirmar que o governador havia telefonado ordenando que alguém fabricasse um diploma para sua filha, nem que o presidente da universidade tivesse pessoalmente determinado cada alteração no histórico.
O problema era mais institucional.
Administradores trabalharam com informações incompletas, aceitaram afirmações sem documentação suficiente e tomaram uma decisão acadêmica que as evidências disponíveis não sustentavam.
A presença de pessoas ligadas à presidência da universidade durante o processo também aumentou a percepção de pressão.
E tudo isso ocorreu depois de uma pergunta de um jornal.
A universidade poderia simplesmente ter respondido:
“Ela não concluiu o curso.”
Em vez disso, começou a procurar maneiras de explicar por que aparentemente ela havia concluído algo que os registros diziam que não havia concluído.
Foi aí que um problema de currículo se transformou em escândalo.
A revogação do título e as consequências do escândalo
Em abril de 2008, a comissão apresentou suas conclusões.
O resultado foi devastador para a universidade.
O MBA concedido a Heather Bresch deveria ser revogado.
Em 25 de abril de 2008, a WVU iniciou formalmente o processo enviando uma carta certificada a Bresch para rescindir o título. (BOG)
As consequências não pararam no diploma.
O reitor acadêmico Gerald Lang deixou o cargo depois das críticas sobre sua participação na decisão. (Inside Higher Ed)
O diretor da escola de negócios, R. Stephen Sears, também renunciou à função. (Pittsburgh Post-Gazette)
O presidente Michael Garrison acabaria anunciando sua saída da universidade.
Posteriormente, uma investigação criminal chegou a analisar a conduta dos envolvidos. O grande júri decidiu não apresentar acusações criminais, embora tenha considerado que limites éticos e morais haviam sido violados e caracterizado o episódio como resultado de mau julgamento e uso inadequado de poder. (Pittsburgh Post-Gazette)
E o escândalo ainda produziria outra surpresa.
Uma auditoria posterior do programa Executive MBA encontrou possíveis problemas nos registros de dezenas de outros diplomas, indicando que as deficiências administrativas da universidade poderiam ir além do caso Bresch. (Inside Higher Ed)
Isso não eliminava a excepcionalidade do episódio.
No caso dela, não faltava apenas uma disciplina esquecida no sistema.
Faltavam 22 créditos.
A universidade primeiro disse que o MBA não existia. Depois decidiu que existia. Alterou o histórico para sustentá-lo. Uma investigação examinou as evidências e concluiu que ele não deveria ter sido concedido. Então a própria universidade precisou revogá-lo.
Foi um percurso extraordinariamente complicado para chegar exatamente ao ponto onde os registros estavam antes de tudo começar:
Heather Bresch não havia completado os requisitos do MBA.
Conclusão
O caso de Heather Bresch ficou marcado não simplesmente porque uma universidade concedeu um título indevido, mas porque mostrou como reputação, influência e decisões administrativas podem interferir em algo que deveria depender de critérios bastante objetivos: cursar as disciplinas, obter as notas e cumprir os créditos necessários.
Uma ligação jornalística para conferir um currículo acabou revelando alterações em registros acadêmicos, provocando uma investigação e contribuindo para a queda de importantes dirigentes universitários. No fim, foram necessários meses de investigação para confirmar aquilo que o histórico original já dizia desde o início: os créditos simplesmente não estavam lá.
Referências verificadas
- Atas do Conselho da West Virginia University, 23 de abril de 2008 — registra que o grau foi concedido indevidamente e acolhe a recomendação de revogação.
- Atas do Conselho da West Virginia University, 30 de maio de 2008 — confirma que a revogação foi iniciada por carta em 25 de abril; também explica que notas foram lançadas sem comprovação de matrícula ou pagamento.
- Pittsburgh Post-Gazette: “WVU made ‘flawed’ decision” — informa que faltavam 22 dos 48 créditos e detalha a inclusão retroativa de disciplinas e notas.
- Inside Higher Ed: “Failures of Leadership” — resume as conclusões da comissão investigadora e registra a alegação de Bresch de que teria obtido equivalências por experiência profissional.
- CBS News/AP: renúncia do presidente da WVU — documenta as consequências administrativas do escândalo e confirma que disciplinas e notas foram acrescentadas ao histórico incompleto.