Todo governante tem sua obsessão particular. Alguns colecionam territórios, outros colecionam inimigos. Jorge IV colecionava banquetes — e depois passava o resto do dia tentando esconder o resultado disso do resto do país.
Ele subiu ao trono do Reino Unido em 1820, aos 57 anos, já carregando duas décadas de excessos nas costas e uma popularidade que só piorava. O apetite, a bebida e a vida sedentária tinham feito dele um homem enorme para os padrões da época — e, principalmente, um homem que se recusava a admitir isso em público.
O príncipe que não resistia a um banquete
Jorge passou boa parte da vida como Príncipe Regente antes de virar rei, governando de fato desde 1811 por causa da doença do pai, Jorge III. Foi um período de luxo generoso: jantares intermináveis, quantidades industriais de álcool e um chef francês de prestígio contratado só para alimentá-lo com fartura.
O corpo cobrou a conta. Por volta de 1797 ele já pesava cerca de 111 quilos, e a tendência era só piorar. Gota, problemas circulatórios e o inchaço característico do excesso de peso viraram companhia constante — nada muito surpreendente para quem tratava o prato principal como compromisso de Estado.
Nos últimos anos de vida, a situação chegou a um ponto em que o próprio ato de deitar se tornou um problema médico. Episódios de falta de ar forçavam o rei a dormir praticamente sentado, numa cadeira adaptada para funcionar como cama. Não é o tipo de detalhe que qualquer retrato oficial se preocupasse em registrar.
A engenharia de três horas para caber na própria roupa
Aqui está a parte que realmente separa Jorge IV de qualquer rei mediano: o esforço logístico para ele simplesmente se vestir pela manhã.
Em 1824, seu espartilho — feito sob medida, de osso de baleia — precisava comportar uma cintura de aproximadamente 130 centímetros. Vestir o rei se tornou um processo de quase três horas, entre amarrar, apertar e rezar para que nada arrebentasse no meio do caminho.
Na própria coroação, em 1821, o aperto do espartilho foi tanto que ele quase desmaiou em plena cerimônia. Contemporâneos registraram que, sem o espartilho, o abdômen do rei simplesmente pendia entre os joelhos. Não é o tipo de detalhe que um monarca gostaria de ver descrito por escrito, mas a corte não fez muita questão de poupá-lo.
O retrato que mentia por ele
Se o espelho era inimigo, a solução óbvia era não olhar para ele — e pagar alguém para pintar uma versão mais gentil da realidade.
O pintor Thomas Lawrence foi o retratista oficial de Jorge IV, responsável por imagens solenes e favoráveis do rei em trajes de coroação. O contraste com os relatos da época é notável: nos quadros, um monarca imponente; nos diários de quem convivia com ele, um homem que a própria esposa, Carolina de Brunswick, descreveu ao conhecê-lo como “muito gordo” e nada parecido com seu retrato.
Fora dos salões reais, os caricaturistas cobraram o preço da vaidade com juros. James Gillray e George Cruikshank transformaram Jorge em personagem recorrente de sátiras, desenhando-o como uma baleia espremida em trajes — o apelido “Prince of Whales” (trocadilho com “Prince of Wales”, título que ele carregava antes de virar rei) circulou nos panfletos populares da época como piada corrente.
A ironia é que o próprio rei ajudou a alimentar esse contraste sem perceber. Foi ele quem popularizou, na moda da Regência, o uso de cores escuras, colarinhos altos e calças mais soltas no lugar dos justos culotes até então em voga — mudanças que a posteridade registrou como tendência elegante, mas que nasceram, na prática, como estratégia de camuflagem corporal. Um homem tentando enganar o espelho e, sem querer, ditando moda para meio país ao mesmo tempo.
A lenda dos registros sumidos — verdade ou boato?
É aqui que a fama de Jorge IV encontra o folclore. Circula, em relatos populares sobre o rei, a história de que ele teria mandado ocultar ou destruir registros oficiais do próprio peso — um gesto de vaidade tão extremo que beira o cômico.
O problema é que essa versão específica não aparece confirmada em nenhuma fonte histórica primária consultada para este texto. O que existe, e isso sim é bem documentado, é o esforço visual e social de disfarçar o tamanho: roupas escuras para emagrecer a silhueta, colarinhos altos para esconder o papo duplo, calças soltas no lugar dos justos culotes que estavam na moda. Vaidade, sim — mas do tipo que se resolve com alfaiate, não com censura de arquivo.
Vale registrar a ressalva: uma das versões que circulam sobre o rei pode ter nascido justamente da mistura entre esse disfarce genuíno e o exagero natural que qualquer bom causo histórico acumula com o tempo.
A virada final: o rei que nem o povo aguentava mais
Toda essa engenharia de aparência não comprou a Jorge IV o que ele mais queria: ser querido. Enquanto a corte via um rei cada vez mais recluso e dependente de láudano para lidar com a dor da gota, o público via nos panfletos ilustrados um bobo obeso incapaz de governar com dignidade.
Um de seus próprios assessores chegou a registrar em diário que dificilmente existiria homem mais “desprezível, covarde, egoísta e insensível” ocupando o trono. Quando Jorge IV morreu, em 1830, a reação popular foi de indiferença — resultado nada surpreendente para um monarca que passou mais tempo cuidando da própria silhueta do que da própria imagem política.
Conclusão
A história de Jorge IV não é sobre um vilão espetacular nem sobre uma tragédia grandiosa. É sobre um homem que tentou controlar a única coisa que parecia estar ao seu alcance — a própria aparência — enquanto o resto do reino escapava do seu controle político e afetivo.
Fica a lição, se é que existe uma: nenhum espartilho, por mais bem ajustado que seja, segura a opinião pública no lugar. Jorge IV descobriu isso da pior forma, três horas de aperto por vez.
Fontes consultadas:
- Royal Collection Trust / registros históricos sobre a coroação de 1821
- Brighton & Hove Museums — acervo sobre a saúde e vestuário de Jorge IV
- Registros biográficos consolidados (Roger Fulford, “George the Fourth”)