A Guerra do Contestado foi um conflito social e armado ocorrido entre 1912 e 1916 numa região disputada por Paraná e Santa Catarina. De um lado estavam sertanejos, posseiros e trabalhadores empobrecidos; do outro, tropas, coronéis e interesses empresariais. No meio havia ferrovia, madeira, fé religiosa e gente poderosa convencida de que progresso era algo que se instalava expulsando os moradores.
Durante muito tempo, o episódio foi resumido como uma revolta de “fanáticos”. A explicação dispensava perguntas sobre terras tomadas e direitos ignorados. A historiografia posterior mostrou uma realidade mais complexa: conflito fundiário, marginalização política, transformação econômica e um movimento religioso capaz de organizar a resistência.
Um território disputado e uma população esquecida
O nome “Contestado” vinha da indefinição sobre os limites entre Paraná e Santa Catarina. A área entre os rios Iguaçu e Uruguai era reivindicada pelos dois estados. A incerteza favorecia disputas entre autoridades, proprietários e populações que ocupavam a terra havia gerações, muitas vezes sem títulos formais.
Os moradores viviam da agricultura, da criação de animais, da erva-mate, do pinhão e da madeira. Eram posseiros e pequenos lavradores conhecidos genericamente como caboclos. Diante dos cartórios e dos grandes interesses, suas raízes valiam menos do que uma assinatura bem relacionada.
A questão de limites criou o cenário político, mas não foi a causa isolada. A guerra nasceu da concentração fundiária, do poder dos coronéis, do avanço empresarial e da expulsão de moradores sem meios institucionais para defender seus direitos.
As causas da Guerra do Contestado
A Guerra do Contestado ocorreu durante a Primeira República, quando coronéis controlavam terras, votos, forças privadas e parte da administração. Para o sertanejo sem título ou padrinho político, a República oferecia liberdade suficiente para assistir à própria expulsão.
O governo federal concedeu à Brazil Railway Company a construção de trechos da Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande. A ferrovia ligaria regiões e facilitaria o comércio. O problema foi o método e quem pagou a conta.
A ferrovia e as terras entregues às companhias
A concessão ferroviária envolvia terras ao longo dos trilhos, numa faixa que chegava a 15 quilômetros de cada lado. Embora tratadas como devolutas, muitas dessas áreas estavam ocupadas e cultivadas por famílias sertanejas. A implantação da ferrovia, portanto, não atravessou um vazio: atravessou casas, roças e formas de vida que o Estado demonstrou notável capacidade de não enxergar.
Associada ao grupo ferroviário, a Southern Brazil Lumber and Colonization Company explorou madeira e colonizou as terras. Posseiros foram removidos, enquanto trabalhadores da estrada ficaram sem ocupação após as obras. O resultado foi uma população empobrecida e deslocada num território valorizado.
Coronéis, posseiros e uma República bastante seletiva
Os coronéis locais exerciam poder econômico e político, contando frequentemente com apoio policial e governamental. Conflitos antigos por terras ganharam nova intensidade quando companhias e grandes proprietários passaram a reivindicar áreas ocupadas por pequenos agricultores.
Os sertanejos não formavam um bloco homogêneo, nem todas as suas ações foram defensivas. O movimento atacou propriedades, ocupou localidades e, na fase mais militarizada, recrutou pessoas sob coerção. Reconhecer isso evita trocar a caricatura oficial por uma lenda confortável.
José Maria, o Combate do Irani e a guerra santa
Nesse ambiente apareceu José Maria, curandeiro ligado à tradição dos monges do Contestado. Ele reuniu seguidores e pregou uma ordem comunitária inspirada pela religião. Para uma população desamparada, a promessa de proteção espiritual tinha um apelo que os decretos republicanos não conseguiam igualar.
Em 1912, José Maria e seus seguidores deixaram Taquaruçu e seguiram para Irani, localidade situada na área disputada. O governo paranaense interpretou a movimentação como ameaça territorial e enviou uma força comandada por João Gualberto Gomes de Sá Filho. Em 22 de outubro de 1912, o confronto terminou com mortos dos dois lados, incluindo José Maria e João Gualberto. O Combate do Irani tornou-se o marco inicial convencional da guerra.
A morte do monge não encerrou o movimento. Espalhou-se a crença de que ele retornaria à frente de um Exército Encantado de São Sebastião. Essas crenças integravam a experiência sertaneja, mas classificá-las como loucura servia aos adversários: transformava uma revolta social em caso de polícia com decoração religiosa.
Cidades santas, cerco e repressão militar
A partir de 1913, os seguidores voltaram a se reunir nas chamadas cidades santas. Taquaruçu foi destruída em fevereiro de 1914, mas a repressão ampliou o movimento. Caraguatá tornou-se outro reduto, associado a Maria Rosa, jovem que a tradição descreveu como visionária e liderança da resistência.
O movimento se militarizou. Os sertanejos organizaram guardas, ocuparam localidades, atacaram estações e enfrentaram forças estaduais. Lideranças religiosas conviviam com comandantes de combate. Nos redutos, a esperança de uma ordem mais justa dividia espaço com escassez e disciplina severa.
Em 1914, o governo federal enviou uma operação comandada pelo general Setembrino de Carvalho. Milhares de soldados, forças estaduais e vaqueanos ligados aos coronéis cercaram a região. O Exército usou artilharia, metralhadoras e uma estratégia de isolamento.
O reduto de Santa Maria foi destruído em 1915. Com o cerco, a fome e as doenças passaram a matar juntamente com as armas. Os últimos combates importantes ocorreram no fim daquele ano, embora perseguições, rendições e execuções tenham continuado. Adeodato Ramos, uma das últimas lideranças, foi capturado entre julho e agosto de 1916.
Mortos que a República não conseguiu contar
Não existe consenso sobre o número de vítimas. Estimativas históricas variam de cerca de 3 mil a mais de 10 mil mortos, e cifras ainda maiores aparecem em algumas pesquisas e narrativas regionais. A ausência de registros completos, as mortes por fome e epidemias e as execuções fora dos combates impedem uma contagem definitiva.
A maioria das vítimas pertencia à população sertaneja, e mulheres e crianças também morreram. Qualquer número deve ser apresentado como estimativa. A incerteza estatística apenas revela quais vidas o poder público não considerou necessário registrar com muito zelo.
O acordo de 1916 e a disputa pela memória
Em 20 de outubro de 1916, Paraná e Santa Catarina dividiram a área contestada sob mediação do presidente Wenceslau Braz. Santa Catarina ficou com aproximadamente 28 mil quilômetros quadrados, e o Paraná, com cerca de 20 mil. O litígio terminou, mas suas consequências permaneceram.
Durante décadas, boa parte da narrativa oficial descreveu os revoltosos como bandidos ou fanáticos manipulados pela superstição. Pesquisas posteriores recuperaram a dimensão camponesa do movimento e mostraram que religião, luta pela terra e resistência política não eram explicações concorrentes. Formavam, juntas, a experiência histórica dos sertanejos.
A Guerra do Contestado não foi uma explosão irracional contra o progresso. Foi uma reação à maneira como esse progresso chegou: trilhos, serrarias e papéis de propriedade avançaram com proteção estatal, enquanto os habitantes locais descobriram que viver numa terra por gerações era um argumento menos persuasivo do que possuir a companhia que passaria por cima dela. Ao final, a República conseguiu traçar a fronteira entre dois estados com precisão consideravelmente maior do que demonstrou ao reconhecer os direitos e contar os mortos de quem já estava ali.
Conclusão
A Guerra do Contestado reuniu disputa territorial, expropriação fundiária, religiosidade e resistência social numa das maiores guerras camponesas da história brasileira. Seus sertanejos não eram figuras passivas nem personagens de uma lenda pitoresca, mas comunidades que reagiram a mudanças impostas sem representação ou proteção.
Compreender o conflito exige manter juntas suas várias dimensões e abandonar explicações fáceis. Entre a ferrovia celebrada como símbolo de modernidade e os redutos destruídos em nome da ordem, o Contestado expõe o preço humano de um projeto de país que decidiu avançar antes de perguntar quem seria esmagado no caminho.
Links utilizados para conferência
- Biblioteca Nacional Digital
- Senado Federal, Arquivo S
- SciELO: Delimitando o território
- SciELO: Guerra, cerco, fome e epidemias
- Memória Política da Assembleia Legislativa de Santa Catarina