Grupo Donner: o atalho que levou uma caravana direto para o desastre

A história do Grupo Donner demonstra que poucas expressões são tão perigosas quanto “conheço um atalho”, sobretudo quando pronunciadas diante de famílias inteiras, dezenas de carroças e uma cordilheira prestes a receber o inverno.

Em 1846, cerca de 90 emigrantes partiram rumo à Califórnia e descobriram, com uma precisão que dispensava futuras demonstrações, que um mapa otimista não melhora o terreno.

A corrida para ocupar o Oeste americano

Na década de 1840, milhares de norte-americanos atravessavam o continente em busca de terras e oportunidades no Oregon e na Califórnia.

A viagem seguia trilhas já conhecidas, mas continuava longa, dispendiosa e suficientemente arriscada para fazer qualquer manual de turismo parecer uma manifestação de excesso de confiança.

Entre os emigrantes estavam as famílias de George e Jacob Donner e do comerciante James Reed, que deixaram Illinois em abril de 1846.

Eles viajaram inicialmente com uma caravana maior, seguindo o sistema de trilhas que levava os colonos através das Grandes Planícies e das Montanhas Rochosas.

A data de partida tinha importância considerável, porque as carroças precisavam atravessar a Sierra Nevada antes das primeiras grandes nevascas.

Cada demora consumia provisões, enfraquecia os animais e reduzia a margem disponível para alcançar a Califórnia antes do inverno.

O problema era perfeitamente conhecido, mas a história humana conserva uma longa tradição de reconhecer prazos e, logo depois, tratá-los como sugestões decorativas.

Hastings Cutoff: o atalho que ninguém testou com carroças

Em 1845, o advogado e promotor Lansford W. Hastings publicou The Emigrants’ Guide to Oregon and California, no qual descreveu uma rota supostamente mais curta para a Califórnia.

O chamado Hastings Cutoff passaria ao sul do Grande Lago Salgado e poderia, segundo seu divulgador, economizar centenas de quilômetros.

Havia apenas um inconveniente de natureza quase burocrática: Hastings não havia percorrido integralmente aquele trajeto com uma caravana de carroças.

A rota parecia plausível nos mapas, uma circunstância que costuma ser muito tranquilizadora para quem não precisa atravessá-la.

O experiente viajante James Clyman havia examinado parte do caminho com Hastings e advertiu James Reed para permanecer na trilha estabelecida.

Ainda assim, quando chegaram a Fort Bridger, os futuros integrantes do Grupo Donner decidiram seguir o novo percurso.

Em 19 de julho de 1846, eles deixaram a rota tradicional, elegeram George Donner como capitão e avançaram pelo atalho.

Hastings já havia partido com outros emigrantes e deixou instruções para que o grupo o seguisse, oferecendo uma espécie de assistência remota numa época em que nem sequer existia o consolo de culpar o sinal.

Quando o caminho mais curto começou a cobrar juros

Ao chegarem às montanhas Wasatch, os emigrantes descobriram que o trajeto não estava preparado para a passagem de carroças.

Durante dias, precisaram derrubar árvores, remover obstáculos e abrir caminho por desfiladeiros e terrenos acidentados.

A lentidão transformou a prometida economia de distância numa crescente dívida de tempo.

Depois veio a travessia dos desertos salgados a oeste do Grande Lago Salgado, onde as condições eram muito mais severas para carroças e animais do que Hastings havia sugerido.

A caravana atravessou uma extensão árida quase sem água, enquanto bois enfraqueciam, morriam ou desapareciam.

Para aliviar as carroças, famílias abandonaram móveis, utensílios e outros bens levados desde Illinois.

Quando o grupo finalmente reencontrou a trilha principal, havia perdido semanas importantes, boa parte de seus animais e uma quantidade preocupante de provisões.

A viagem ainda foi agravada por acidentes, desentendimentos e violência interna.

Em outubro, durante uma discussão envolvendo carroças, James Reed matou o condutor John Snyder e foi expulso da caravana.

Reed seguiu sozinho para a Califórnia e mais tarde participaria dos esforços para socorrer as famílias que haviam ficado para trás.

O atalho, portanto, não lançou magicamente o grupo dentro de uma nevasca, mas eliminou grande parte da margem que poderia ter permitido uma travessia segura.

Como o Grupo Donner ficou preso na Sierra Nevada

No fim de outubro, os emigrantes chegaram à região de Truckee Meadows, nas proximidades da atual Reno.

Ali encontraram Charles Stanton, que havia retornado da Califórnia trazendo mantimentos e informações sobre o caminho adiante.

Exausto, o grupo descansou durante seis dias antes de tentar cruzar a Sierra Nevada.

A pausa ajudou pessoas e animais a recuperar alguma força, mas também consumiu um tempo que o calendário já havia tornado escasso.

Quando as famílias alcançaram Truckee Lake, posteriormente rebatizado como Donner Lake, a neve já cobria o terreno.

Três tentativas de atravessar o passo fracassaram diante das tempestades e da acumulação de neve.

A maior parte da caravana instalou-se em cabanas improvisadas perto do lago, enquanto as famílias Donner permaneceram em Alder Creek, alguns quilômetros atrás.

Os abrigos eram precários, a caça era insuficiente e as provisões diminuíam rapidamente.

Couro, ossos e peles de animais foram fervidos na tentativa de produzir alguma alimentação.

O diário de Patrick Breen, escrito entre novembro de 1846 e março de 1847, registrou o avanço da fome, as mortes, o clima e a espera pelo socorro com uma secura quase administrativa.

A primeira expedição de resgate somente alcançou os acampamentos em fevereiro de 1847.

Outras equipes ainda seriam necessárias para retirar os sobreviventes, e o último integrante encontrado vivo deixou a região em abril.

Sobrevivência, canibalismo e a parte que a lenda simplificou

Em dezembro, 15 integrantes deixaram os acampamentos usando raquetes de neve improvisadas para tentar alcançar os povoados da Califórnia.

O grupo ficaria conhecido como Forlorn Hope, expressão que pode ser traduzida como “esperança desesperada” e que, neste caso, não desperdiçava palavras.

Sem alimentos e cercados pela neve, alguns sobreviventes recorreram ao consumo dos corpos daqueles que já haviam morrido.

Sete integrantes da marcha conseguiram alcançar auxílio e comunicar a situação dos acampamentos.

Relatos de sobreviventes, documentos dos resgatadores e o diário de Patrick Breen sustentam que houve canibalismo de sobrevivência em determinados momentos.

Isso não significa, porém, que todos os integrantes tenham participado ou que a história possa ser reduzida ao seu aspecto mais macabro.

Escavações realizadas em Alder Creek não encontraram evidência inequívoca de ossos humanos consumidos naquele acampamento, embora isso não invalide os testemunhos referentes a outros locais e períodos da tragédia.

As próprias contagens variam conforme o momento utilizado para definir quem integrava a caravana, motivo pelo qual algumas fontes mencionam 87, 89 ou 91 pessoas.

A formulação historicamente mais prudente é que cerca de 90 pessoas fizeram parte do Grupo Donner e menos da metade sobreviveu ao desastre.

A fama posterior concentrou-se no canibalismo porque a memória pública aprecia um horror simples, enquanto os fatos oferecem algo mais desconfortável: propaganda irresponsável, decisões coletivas, atrasos acumulados e condições naturais extremas.

Hastings prometeu encurtar o caminho, mas seu grande feito cartográfico foi demonstrar que uma rota pode ser menor no papel e vastamente mais longa na realidade.

Conclusão

O desastre do Grupo Donner não nasceu de um único erro espetacular, mas de uma sequência de escolhas, atrasos, perdas e circunstâncias climáticas que retirou gradualmente todas as alternativas razoáveis. O Hastings Cutoff foi decisivo porque consumiu o tempo e os recursos de que a caravana precisaria para atravessar a Sierra Nevada antes da neve.

A tragédia permanece como uma história sobre os perigos da confiança depositada em promessas não testadas e sobre os limites extremos da sobrevivência humana. No fim, o atalho não foi apenas uma rota ruim: foi a decisão que tornou cada problema seguinte muito mais difícil de corrigir.

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