A noite em que um balé quase virou briga de bar em Paris

Existem estreias que decepcionam. Existem estreias que fazem sucesso. E existe a noite de 29 de maio de 1913, em Paris, quando um balé conseguiu provocar algo tão fora do comum que virou sinônimo de escândalo na história da música: gente aos gritos, socos trocados entre poltronas e a polícia precisando entrar num teatro chique para separar briga.

O balé em questão era A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky. E a plateia daquela noite simplesmente não estava preparada para o que ia ver.

Uma noite chique em Paris que ninguém viu chegar

O cenário não sugeria nada de anormal. O recém-inaugurado Théâtre des Champs-Élysées recebia a alta sociedade parisiense para mais uma apresentação dos badalados Ballets Russes, a companhia comandada pelo empresário Sergei Diaghilev, que já vinha emplacando sucessos na cidade havia anos. Fundada em 1909, a trupe reunia nomes que se tornariam lendários da dança e das artes visuais, e já havia consagrado Stravinsky com dois trabalhos anteriores — “O Pássaro de Fogo” e “Petrushka” — que tinham conquistado plateias parisienses sem qualquer sobressalto.

O programa da noite abria de forma tranquila, com “Les Sylphides”, um balé suave sobre música de Chopin — exatamente o tipo de espetáculo elegante que aquele público esperava.

Depois veio o prato principal: a estreia de “A Sagração da Primavera”, com coreografia do já famoso Vaslav Nijinsky, cenário e figurinos do pintor Nicolas Roerich, e regência de Pierre Monteux. Ninguém na plateia fazia ideia do que estava prestes a acontecer.

Bastava um fagote para começar o caos

A confusão começou quase imediatamente, e de um jeito quase cômico em retrospecto: o solo de abertura, tocado no fagote, usava um registro tão agudo e incomum para o instrumento que provocou risadinhas e zombaria entre parte do público antes mesmo de a cortina se abrir de verdade. A partir daí, o clima só piorou.

À medida que a orquestra avançava por dissonâncias cada vez mais ousadas para os ouvidos de 1913, as vaias foram ficando mais altas e mais frequentes. Relatos da época mencionam trocas de insultos diretos entre espectadores — um deles teria gritado para calar “as gralhas do século XVI” em direção a quem reclamava da música, enquanto outros defendiam a obra aos berros.

Quando a coreografia entrou, a plateia perdeu de vez a paciência

Se a música já tinha irritado meio teatro, a coreografia de Nijinsky acabou de detonar qualquer verniz de compostura que restava. Em vez dos movimentos clássicos e harmoniosos que o público esperava de um balé, Nijinsky apresentou dançarinos com pés virados para dentro, saltos pesados e uma estética deliberadamente “primitiva”, inspirada em rituais pagãos.

A plateia se dividiu em dois campos abertamente hostis. Quem defendia a ousadia da obra trocava gritos com quem a considerava um insulto ao bom gosto. As brigas verbais escalaram para empurrões e, segundo diversos relatos de testemunhas, chegaram a socos nos corredores do teatro — uma cena digna de bar de esquina, só que em plena noite de gala parisiense, entre o público mais refinado da cidade. Uma senhora da plateia chegou a protestar publicamente, indignada por sentir que estava sendo motivo de chacota entre os vizinhos de poltrona — um sinal de como a tensão tinha deixado de ser sobre a obra em si e virado, também, uma disputa social entre quem “entendia” arte nova e quem não estava disposto a fingir que entendia.

Luzes acendendo, polícia chegando, bailarinos sem conseguir ouvir a orquestra

O caos na plateia criou um problema prático nos bastidores: com o barulho da multidão, os bailarinos no palco simplesmente não conseguiam mais ouvir a orquestra para se guiar pelo ritmo. A solução de Nijinsky foi tão desesperada quanto memorável — ele subiu numa cadeira nos bastidores e passou a gritar a contagem dos compassos em russo para os dançarinos, tentando manter a coreografia sincronizada em meio ao pandemônio. Em determinado momento, o próprio Stravinsky precisou segurá-lo pela cauda do fraque para evitar que ele caísse da cadeira durante os gritos.

Enquanto isso, Diaghilev, desesperado para recuperar o controle da noite, começou a acender e apagar as luzes da plateia repetidamente, numa tentativa de acalmar os ânimos que simplesmente não funcionou. A confusão chegou a um ponto em que a polícia de Paris precisou ser chamada para conter o tumulto — sem, no entanto, conseguir interromper a apresentação, que seguiu até o fim sob regência imperturbável de Pierre Monteux, descrito por Stravinsky décadas depois como “impassível como um crocodilo” em meio a todo aquele caos.

Um ano depois, a plateia mudou de ideia

O desfecho dessa história tem uma reviravolta e tanto. Em abril de 1914, quase um ano depois do fiasco, Monteux voltou a reger a obra — mas dessa vez em versão de concerto, sem a coreografia polêmica de Nijinsky que havia dividido tanto a plateia original. O resultado não poderia ser mais diferente: a mesma partitura que quase gerou uma briga generalizada foi recebida com aplausos calorosos, e a obra passou a ser reconhecida como um marco absoluto da música do século XX.

A virada sugere algo interessante sobre aquela noite turbulenta: talvez o problema nunca tivesse sido só a música em si, mas a combinação explosiva entre uma partitura ousada, uma coreografia radicalmente não convencional e um público simplesmente despreparado para engolir as duas coisas ao mesmo tempo.

Conclusão

Hoje, “A Sagração da Primavera” é tratada como uma das obras mais influentes já compostas, regularmente encenada em teatros do mundo inteiro sem qualquer registro de tumulto na plateia. É difícil, olhando para trás, imaginar aquela mesma música provocando socos entre senhoras e senhores da alta sociedade parisiense.

Mas por uma única noite de maio de 1913, foi exatamente isso que aconteceu: uma orquestra tocando até o fim, um coreógrafo gritando contagens em russo de cima de uma cadeira, e uma plateia inteira decidindo que aquela seria a noite perfeita para brigar por causa de balé. Fica a prova de que, às vezes, a diferença entre um fracasso retumbante e uma obra-prima reconhecida não é a qualidade do material — é só o tempo necessário para o público se acostumar com o choque.

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